
quarta-feira, 26 de maio de 2010
Sem idade para amar.

Um homem alto e robusto andava apressado pelos corredores extensos da escola em que dava aula. Seus olhos eram azuis reluzentes, mas frios como um inverno tempestuoso. Tinha os cabelos lisos e negros, que lhe caíam à face irritando os olhos, fazendo o arquear a cabeça simultaneamente com enorme elegância, para retirar os fios rebeldes. Em uma das mãos carregava uma maleta na qual balançava ao estímulo de seus passos. Na outra mão estava seu casaco novo de algodão com trezentos fios do Egito. Ele amassava e deformava o tecido pela tensão de seus dedos, mas sem nenhum arrependimento.
A cada passo que dava gotículas de suor escorriam por seu rosto tenso e apreensivo. Passavam pela testa rugosa, deslizavam para as sobrancelhas concentradas no centro e terminavam na curvatura de seus lábios frenéticos. Sua boca abria a fechava constantemente como se falasse com alguém, mas na verdade estava era tentando se distanciar, afastar, fugir de alguém. Não que essa pessoa lhe queira mal e nem estava lhe fazendo mal, mas não havia soluções para o que aquela pessoa queria. Na mente daquele homem, era apenas mais uma distração que o fazia perder grandiosos minutos de seu tempo.
Ele provavelmente estaria sozinho se não fosse uma pequena menina que também andava com destreza atrás de seu professor. Era baixa, tinha os cabelos soltos à altura dos ombros. Usava óculos que escondiam sua beleza por detrás dos aros grossos e as lentes espelhadas. Era muito desajeitada o que possibilitava à quase tombos pelo caminho, quando seus pés insistiam e fazê-la passar vergonha e se enrolavam, como se sentissem uma indescritível saudade um do outro. Dava a impressão de ser frágil, sensível, débil, mas ao mesmo tempo uma força, uma necessidade de expressão brigava dentro de seu ser, insistindo em sair. A carapaça é muito dura para se quebrar tão facilmente.
Ele estava falando com ela, repelindo-a. "Eu lhe disse para não me seguir. Não vê que sou um homem ocupado? Não me venha com esses sentimentos de adolescentes!" Ele andou um pouco mais, as mãos apertadas contra o casaco. Ela continuou a segui-lo. " Eu nunca disse isso, não vê que é um engano?" Ela o olhou desconcertada." Aquele dia não significou nada, você devia saber disso!" Um rubor apareceu em sua pele branca. As lembranças do dia voltando em sua mente juvenil."Ah, cale essa boca. Se você continuar a insinuar uma coisa dessas eu vou ser despedido!" Ela se calou um pouco.
Já estavam quase chegando na porta da escola. O céu estava claro, tudo claro, menos a mente daquele professor. Os passos fortes no chão faziam eco por todo o corredor. Batidas de coração, de emoção, socos no estômago pelo arrependimento fluindo vagamente, as dores pela perda e negação; tudo era um eco.
Então ele parou quando seus pés estavam quase percorrendo a linha que os separavam. "JÁ CHEGA!" ela se assustou "Eu já lhe disse que, mesmo que houvesse alguma coisa, você é um fraca, idiota, perdedora, não consegue nem ao menos falar sem gaguejar. Não valeria à pena, nunca."Seu rosto se contorceu um pouco e se abaixou, os olhos arregalados. O rosto se levantou bravamente. "Eu não estou mentido, não seja estúpida." Ela então se permitiu desistir e deixá-lo ir. "Você é nova demais, criança demais. Não sabe o que é o amor. Você vai se esquecer em alguns dias e superar. Então para de me importunar e vai cuidar da sua vida. Você não tem nada comigo e nunca vai ter. Eu até vou pedir para dar aula em outra turma!" Com essas palavras ela se apavorou. Apesar de tudo, era idiota suficiente pra não querer distância dele, mesmo que ele não queira sua presença insignificante. "Chega de burrices. Cresça e apareça menina. Se olhe no espelho. Você não é nada."
Ele percorreu a linha e saiu em disparada para o clarão. Desceu as escadas rapidamente e se misturou entre os outros alunao na saída. Depois entrou em seu carro Pagani Zonda e sumiu no horizonte asfaltado.
Nenhuma lágrima desceu pelos olhos daquela menina, pois ela não haveria de viver novamente como havia vivido. Tão intensamente e exclusivamente à apenas uma pessoa. Alguém por quem havia se declarado e depois negada cruelmente. Ela não tinha mais as emoções de antes. Que ironia do destino: ela havia deixado por querer seu coração no porta-malas.
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♥ Obrigada por ler.
14:50